Prefeitura Municipal de São Francisco de Paula

Sao Francisco de Paula, 11 de dezembro de 2017 Atendimento
Você sabia?
Imprimir Email

Institucional

História

por Prefeitura

29/05/2014 10:00

A PRÉ-HISTÓRIA DE SÃO FRANCISCO DE PAULA

A nossa região, do rio das mortes até as cabeceiras do rio São Francisco, era conhecida inicialmente como Campo Grande dos Cataguá (Cataguás ou ainda Cataguasas, porque eram esses índios que habitavam nessa região). Segundo Silveira Buene, professor emérito da USP, no seu vocabulário Tupi Guarani Português, Cataguá quer dizer caá, mato, árvore, tã, duro, guá, vale, sendo que o plural é Cataguás ou Cataguazes. Em São Francisco de Paula ainda são encontrados índios do século XIX. Podemos também comprovar a existência de índios em São Francisco de Paula, pela descoberta arqueológica de cerâmica em um sítio, em região rural, não se sabendo ainda a que tribo pertencia (m).

OS CATAGUÁ E A COLONIZAÇÃO NO CAMPO GRANDE

No início do século XIX a região do Campo Grande era inóspita, havia apenas mato e índios que se tornavam bravos frente à perseguição predadora dos colonizadores.

Em 1721 foi descoberto ouro em Goiás, no rio Vermelho; mas somente doze anos depois, ou seja, em 1733, deu-se início a abertura da picada de Goiás, quando então, nesse lapso de tempo, intensificou-se sobremaneira a perseguição e expulsão dos nativos dispersando-os.

Em nossa região os índios foram perseguidos por diversos desbravadores, mas foi principalmente Ignácio Corrêa Pamplona (um dos delatores de Tiradentes) quem fez o trabalho de desbravação do sertão de Campo Grande – especificamente a área de Tamanduá, que passou a pertencer a São Francisco de Paula nos primeiros povoamentos. Outro importante perseguidor de nativos foi Bartolomeu Buene de Prado, que deu caça tanto aos índios quanto aos quilombolas. A região do Campo Grande foi desbravada principalmente a partir de 1733, com a abertura da picada de Goiás, só a partir dessa data começou a ser verdadeiramente povoada, quando então os Cataguá tiveram que se dispersar.

ABERTURA E DESENVOLVIMENTO DA PICADA

O caminho para Goiás teve o seu início marcadamente em 1733, cuja “Revista do Arquivo Público Mineiro” (Ano IX, fascs. 3 e 4, pgs. 875-879) diz, através de requerimento dos moradores de S. Domingos de Araxá: “Abrirão uma picada para Goiás, a qual assim ficou chamando”. Este era o caminho novo, dando continuidade ao caminho novo que nos é traçado por Antenil, dá que o caminho velho era o que saía das Minas de Sabará, passando por Pitangui e seguindo daí até a serra da Saudade e Paracatu. Dava-se muita volta, por isso, em 1736 foi permitida a abertura de um outro caminho partindo de Pitangui a Paracatu – buscando um desvio para encurtamento da distância. Temos que levar em conta que em 1733 fora proibida a abertura de caminhos, com exceção feita à picada nova para Goiás. Era grande o interesse pela abertura do caminho, tanto da parte dos sertanistas que investiam na busca de sesmarias, quanto dos mineiros que regorgitavam pela cata do ouro e pedras preciosas. Existia o caminho velho que obrigava a quem saísse de São João Del Rei a dar a volta até as Minas de Ouro Preto e Sabará, para depois seguir viagem a Goiás; aí então é que se deu início à obra. Depois de se conscientizar da necessidade de uma via direta do Rio de Janeiro ou São Paulo a Goiás, é que aconteceram as várias sociedades construtoras do caminho. Ignácio Pamploma, em correspondência oficial, já dizia ao governador de Minas, “que tantas eram as picadas e a tudo iam chamando de picada de Goiás”. E entre esses caminhos que atravessavam a picada, havia um que saindo de Brumado, passava por Oliveira, desviava a Candeias e findava em Piui (Seg, mapa geográfico de José Joaquim da Rocha, de 1778).

No caminho da picada, a tortuosidade, contudo, ia imperando à medida que novas descobertas iam surgindo: agarrado a São Francisco de Paula, Tamanduá, com a cata que deu origem à cidade de Itapecerica e para ali mais tarde foi feito um desvio, mas a descoberta mais importante para a fundação da capela de São Francisco de Paula, foi Piui, como veremos. Daí em diante, cada vez que surgisse um interesse desviante e abrisse uma encruzilhada, o destino era sempre Goiás. É que a picaca, se por um lado levava a evolução a um determinado lugarejo, simples povoado, por entre, deixava a desolação e o despovoamento a muitos outros. – daí os desvios. Havia, é lógico, muitas encruzilhadas que eram feitas por necessidade e não por interesse. Mas com a intensa movimentação e povoação na picada, os índios cataguases foram sendo empurrados cada vez mais para limites outros, distantes de suas antigas aldeias, até que se curvassem ante a imposição civilizadora e se convertessem ao “cristianismo”. Mas, por outro lado, cresciam os quilombos, amancebavam-se os negros com o crime, como no Quilombo Grande de Ambrósio, que por sua vez ficava à margem da picada, próximo a Ibiá. O viajante além de correr os riscos máximos da intempérie, os acidentes topográficos ou geográficos, os animais ferozes, os índios revoltados contra a injunção dos brancos, os assaltantes de estrada (geralmente negros e mulatos) e, principalmente, das febres palustres – tinha ainda a atormentar-lhe os quilombolas pelos caminhos. Apesar de tantos entraves, o caminho continuou, as povoações floresceram e os colonizadores seguiram o rumo da evolução. E eram tantos os quilombos que diversas expedições foram enviadas para destruí-los, principalmente o Quilombo Grande.

AS EXPEDIÇÕES À PICADA DE GOIÁS

A incursão que mais nos imperta à picada de Goiás, é a de 28/12/1723, quando Luiz Diogo, quarto governador e capitão – general da capitania de Minas Gerais, penetra pelo território de Campo Grande da Picada de Goiás, ultrapassando-o até o chapadão da farinha podre (território que pertencia a Goiás na época: Araxá, Desemboque e Uberaba). Era uma caravana oficial da qual fazia parte o poeta inconfidente Cláudio Manoel da Costa. A comitiva esteve em Tamanduá onde descansou, a fim de repor as forças. Tamanduá a esse tempo só tinha dezoito anos desde o arraial. Segundo consta, o governador teria então convidado Ignácio Corrêa Pamploma a se tornar regente dos distritos: “ (…) e com este ajustou providências a fim de conquistar o Oeste, investindo-o com a patente de Mestre – de – campo e a previsão de regente dos distritos de Piui, Bambuí, Campo Grande e Picada de Goiás (e que não quer dizer oliveira, mas região), em previsão de 24 de Junho e patente de 26 de Junho de 1769” (Diogo de Vasconcelos, “História Média de Minas Gerais”). O costume dominante da época era conceder sesmarias de preferência as pessoas da fidalguia e não às classes pobres e desfavorecidas; afinal, o candidato à sesmaria devia ter posse bastante para construir engenho, e por isso, todo aquele que se propusesse a adquirir as suas terras, tinha o cuidado de alegar que não era homem sem meios.

A IMPORTÂNCIA DA PICADA DE GOIÁS

O fato é que a importância do caminho e o desbravamento do Campo Grande que passou mais tarde a se chamar Campo Grande da Picada de Goiás) realizado por Ignácio Corrêa Pamploma, não é apenas circunstancial, mas vital. E de uma vitalidade tão grande que quando se intensificou o desenvolvimento do caminho, a denominação estendeu-se para toda a região, com área tão exponencial que o governador Luiz Diogo, quando estava no arraial de N.senhora de Oliveira, em 1764, entendeu por bem criar nossa localidade, o distrito da picada de Goiás, tornando seu primeiro comandante aquele que depois viria a ser o fundador de N.senhora das Candeias (hoje Candeias, o alferes Domingos Reiz (abreviatura de Rodrigues) de Lima Tendais – segundo José Gomide Borges, historiador de candeias.

A exata localização da picada de Goiás é conhecida e narrada por diversos autores, com as divergências naturais que levantaram polêmicas e que vamos buscar sanar em outro tópico; mas, por enquanto, ficamos com a certeza de que a estrada não foi construída jamais com a idéia de que os viandantes tivessem uma mão única, mas pelo contrário, a fim de que por outros caminhos também se chegasse a Goiás. Temos que levar em consideração ainda, como já dissemos, que eram muitos os caminhos e atalhos, e a confusão pode residir aí. As picadas, que haviam sido proibidas em 1733, voltaram a ser permitidas em 1736, “devido a introdução do novo sistema de cobrança do quinto” (apud Wakdemar de Almeida Barbosa); mas a picada de Goiás já estava sendo construída desde 1733 do lado goiano, e do lado mineiro intensificou-se principalmente a partir de 1736, com um desbravamento parcial já realizado. Os caminhos sem licença eram proibidos, pois havia a necessidade de se fazerem os registros necessários para a cobrança dos direitos de entrada. O certo é que havia três picadas oficiais, ou reais, e André João Antonil cata-as em “cultura e opulência do Brasil…”

A PICADA DE GOIÁS

Saindo de São João Del Rei o caminho novo vinha se constituir na picada de Goiás, passando por Oliveira, São Francisco de Paula, Formiga e ia até Paracatu; daí em diante para Goiás. Partiu de São João em 1818, no dia 21 de outubro; logo pousou no arraial de Sta.Rita (hoje Ritápolis). Em seguida foi ao rio do Peixe, próximo ao arraial de S. Tiago, que por volta de 1837 (Seg. o cel. Cunha Matos) foi consideravelmente destruído. NO dia 23 ele estava no arraial de S. João Batista, hoje Morro do Ferro. Depois, na fazenda do padre João Bernardes da Silveira, que fazia parte da sesmaria de Bernardes Homem da Silveira, progenitor do pároco, que ao requerê-la, dizia ficar junto à picada de Goiás (Seg. José Gomide Borges). Enfim em Oliveira – dia 25. Depois, no engenho de Antônio Lambari: este engenho é hoje a fazenda de Lambari, pertencente à família Ribeiro de Oliveira e Silva. Antônio Lambari era Antônio Ribeiro da Silva, filho de André Ribeiro da Silva, e irmão de Serafim Ribeiro de Castro, como veremos em outra parte. Portanto, a picada de Goiás passava às margens de São Francisco de Paula, Camacho e seguindo daí para Formiga. Em Camacho ele esteve no dia 30. Depois a fazenda do padre Bernardes e finalmente o arraial de Formiga – no dia 31. Em seguida a fazenda de Arcos (onde se localiza hoje a cidade de Arcos), próxima a Iguatama que segundo o historiador de Arcos, Lázaro Barrete, tinha o nome de Porto Real; logo era uma artéria real toda a picada.

OS DESBRAVADORES – IGNÁCIO C. PAMPLONA

A primeira expedição tende Ignácio Pamploma no comando foi a de 1765, portanto as de 63 e 64 de D. Luiz Diogo (que iniciou o povoamento Oeste; e foi devidamente ampliado depois pelo conde de Valadares), é certo que ele estivesse junto, mas na qualidade de assistente e não dirigindo a operação. E nessa sua primeira entrada, a de 65, foram seus companheiros: José Álvares Diniz (que parece tinha grau de parentesco com André Diniz Linhares, um dos precursores de São Francisco de Paula), Antônio Afonso Lamounier (conhecidíssimo em toda região e morador de Itapecerica, tende dado o nome a cidade de Lamounier), Inácio Bernardes de Souza (de valor histórico também para a região), José Antônio Bastos, José Bernardes de Lima (este adquiriu sesmaria em São Francisco de Paula, justamente por esses feitos junto a Ignácio Corrêa Pamploma),. Manoel Coelho Pereira, Simão Rodrigues de Souza, Jacinto de Medeiros, Domingos Antônio da Silva, Leonardo Lopes e Pedro Vieira de Faria. Esta comitiva organizada pelo Mestre-de-campo Ignácio Corrêa Pamploma, em São José Del Rei (Tiradentes), partiu para o Campo Grande da picada de Goiás, e foi até Sant´ana do Bambuí, onde foi erguida a matriz de Santana. E por onde eles passassem iam erguendo uma capela.

MOVIMENTOS PRECURSORES DE SÃO FRANCISCO DE PAULA

As datas são marcantes e a capitania de Minas Gerais só se desmembrou da de São Paulo em 1720; treze anos depois era iniciado o desbravamento mais ostensivo e com mais três anos (1736) dava-se início mais acentuadamente a construção da picada de Goiás. São datas de suprema importância para o nosso povoamento e a criação de arraias. No que concerne a São Francisco de Paula, é de grande importância o descobrimento e povoamento de Tamanduá e a criação do arraial de N.Sra. da Oliveira. Com desmembramento de São Paulo, a capitania de Minas passou a ser mais cuidada; assim, em 1764, o seu governador Luiz Diogo Lobo da Silva, como já tivemos oportunidade de ver, em sua segunda incursão pela zona Oeste de Minas, viajou com a sua comitiva no período de 20 de agosto a 10 de dezembro (esteve em Tamanduá de 10 a 11 de setembro) – para examinar os limites e vertentes e formar uma equipe disposta a penetrar e colonizar a região – de desbravamento ainda tinha muito por fazer. No entanto, desde 1745, já existia o arraial de São Bento do Tamanduá, justamente pelo grande movimento na região o que deve ter despertado a atenção do governador. Como sabemos, toda a nossa região pertencia à comarca do Rio da Morte, cuja cabeça era São João Del Rei, e estávamos incursos dentre do termo pertencente à vila de São José (Tiradentes). O início do povoamento de Tamanduá se deu em 1739 e logo se tornou em o arraial de São Bento, com a vinda de mineiro de São João Del Rei, vila de São José, e, principalmente, do Quilombo cujas minas estavam sendo abandonadas.

OS PRIMEIROS MOVIMENTOS DE OLIVEIRA

 Em que pese que a primeira sesmaria adquirida em São Francisco de Paula tenha sido a mata do Cintra, nós não a podemos considerar, uma vez que ela ficou devoluta até 1760, como veremos no seguimento. No entanto, temos que considerar, outro sim, as movimentações em Oliveira e Carmo da Mata; uma vem que, pela seqüência lógica da picada de Goiás, o povoamento de São Francisco de Paula (considerando os primeiros moradores) deve ter se iniciado, em suas primeiras luzes apagadas, de Oliveira para o Camacho. E, mais tarde, como veremos, o guarda-mor de Passa-Tempo, voltando de Piui; aí sim, foi iniciado o verdadeiro povoamento de São Francisco de Paula pelo lado de Candeias e Santana do Jacaré. Mas é tão grande a importância de Tamanduá, quanto é o povoamento de Oliveira – é que o povoamento de São Francisco de Paula iniciou-se perifericamente até a construção da capela comum.

Com as sesmarias adquiridas em 1753 “no lugar chamado Forquilha”, por Manoel Pires de Bragança e Inácio Afonso Bragança, pelo lado de Carmo da Mata, já se iniciava os desbravamentos nas matas pertencentes ao que é hoje São Francisco de Paula e, pelo lado que divisa com Oliveira, abarcando terrenos tanto de Oliveira quanto de São Francisco de Paula, André Ribeiro da Silva e seus filhos instalaram-se no hoje conhecido Lambari. No entanto, o lado que divisava com Camacho e Itapecerica permanecia uma incógnita, uma vez que os Cintras não olharam por suas terras, deixando-as ao abandono, e, nas vizinhanças destas ainda encontravam-se outras selvagens que precisavam ser requeridas para aproveitamento. E é por isto que o descoberto de Piui veio favorecer denodadamente o povoamento do outro lado de Oliveira e Itapecerica; e é uma prova também de que São Francisco de Paula não teve início antes de Oliveira. E as datas são claras: o povoamento de São Francisco de Paula só começou realmente após a posse definitiva e distribuição de datas minerais do Piui pelo guarda mor de Passa-Tempo, Domingos Vieira da Mota. Certo que do lado de André Ribeiro da Silva e seus filhos o cultivo de suas terras já vinham formando uma espécie de povoamento com o aumento da mão-de-obra escrava, mas eram apenas os primeiros efeitos. Efeitos estes que mais tarde pertenceriam muito mais a Oliveira que São Francisco de Paula.

E fato, a descoberta de ouro em Piui agiu como fator primordial do povoamento de São Francisco de Paula.

O GUARDA-MOR DE PASSA TEMPO

 O guarda-mor de Passa Tempo a quem foi confiada a tarefa de regularizar a situação da vila de São José, era Domingos Vieira da Mota, o capitão Domingos foi mandado a Piui e ali no descoberto tomou as medidas cabíveis e necessárias, a fim de assegurar à vila de São José os seus direitos naquela paragem e tornou-se ainda o responsável pela distribuição de datas minerais. Voltando de Piui, ao ver cumprido sua tarefa, Domingos Vieira da Mota deparou com terras devolutas em um sítio paradisíaco formado por uma região aprazível – é certo que já estivesse à busca de terras para pagamento de seus serviços. Diante de um plácido ribeirão (que depois foi batizado pelo nome de ribeirão dos Mota), ficou encantado e passou a sua comitiva, anotando os fatos mais notáveis daquela vista panorâmica, os acidentes, a corografia, enfim e todas as suas belezas naturais: a vegetação rasteira, os arbustos espaçados, as pequenas e tortas árvores, os ribeiros, as quedas d´agua, os morros e mentes e suas flores exóticas – tanto quanto a fauna. Deparou-se logo com uma miragem que o assorbebou: e assim, entre o real e o imaginário, viu aquele ribeirão ainda desconhecido pelo narrar dos viajantes que passaram pela região, e confirmado pelos guias e tropeiros da comitiva. Era um local ameno; um convite ao prazer de um confortável e merecido repouso – sem Ter a certeza todavia de que mais tarde ali seria também o reduto para seu repouso final.

Uma pedra onde se escorria precioso filete de água a que se deu o nome de “Pedra dos Lençóis”, no morro também denominado “dos lençóis”. Tal visão extasiou sobremaneira o viajante, o azafamado guarda-mor. E este, tão logo retornou a Passa Tempo, tratou de ir a São José prestar conta à câmara e assegurar para si aquelas terras requisitando-as em sesmaria como pagamento pelos serviços prestados à coroa. A sua sesmaria cobria grande extensão de ribeirão descoberto por ele até a Mata do Cintra, que ele mesmo, ao vasculhar o terreno, descobrira que não estava sendo aproveitada pelo seu sesmeiro. E esta sesmaria ia até as nascentes do rio Lambari (que, na verdade, não é um rio, pois, como disse Oiticica: é “apenas um ribeiro de pouca importância” que estende todo o seu percurso por quatro léguas – e mais tarde serviu para dar nome à nova comarca, quando então São Francisco de Paula se incorporou a Oliveira. Logo então o capitão Domingos tratou de ir atrás de seu amigo André Diniz de Linhares, a fim de assegurar-lhe aquelas terras devolutas. Mas ali onde adquirira sua sesmaria, o capitão Domingos (tornado capitão pelos serviços prestados em Piui) ergueu uma morada rústica e passou a residir com sua família, aguardando a vinda de seu amigo, o capitão André Diniz de Linhares; até que este pudesse arrematar as terras do Cintra que iriam ser levadas a leilão. No dia 13 de outubro de 1805, o capitão Domingos veio a falecer, deixando a seus herdeiros os resultados milagrosos da natureza.

A CONTINUIDADE DO PIONEIRISMO

 José Fernandes de Lima, como já tivemos oportunidade de ver, participou da comitiva de Ignácio Corrêa Pamploma, de 1765, e adquiriu a sua sesmaria em São Francisco de Paula, pelos feitos de desbravamento. Já o capitão André Diniz de Linhares, veio à região por indicação e convite de Domingos Vieira da Mota e adquiriu a sua sesmaria em território sob a jurisdição de Oliveira, porque a famosa Mata do Cintra como o Lambari pertenciam a Oliveira que já era arraial, enquanto São Francisco de Paula não tinha nem capela-comum. A mata do Cintra foi adquirida em hasta pública, na vila de São José. Hoje vemos que as terras dos Diniz Linhares em São Francisco de Paula, sendo que grande parte delas está nas mãos de outros proprietários, fazem divisa com Itapecerica e é onde se encontram as minas de grafite. Outra parte passou a pertencer ao proprietário sob jurisdição hoje da mesma Itapecerica. As sesmarias eram muito extensas, e é possível que quando Domingos Vieira da Mota trouxe o capitão andré, lhe tenha cedido alguma terra, até quando este viesse arrematar a Mata do Cintra: a extensão de uma sesmaria ia de 3 léguas de comprido por uma de largura – e as léguas eram de 5.600 metros, o que perfazia aproximadamente vinte e sete quilômetros. E foram registradas tais terras sob jurisdição de Oliveira, como nos diz José Gomide Borges, porque elas se encontravam mais próximas destas, apesar da proximidade também com Itapecerica. É tanto que a fazenda da Mata do Cintra teve parte de suas terras, pelos descendentes de André Diniz de Linhares, transferida para Itapecerica em 1888, pela lei 3.442 de 28/09/1887. Os seus herdeiros foram Francisco Diniz Linhares e João Diniz Linhares, moradores na Freguesia de São Francisco de Paula – ma estas terras confrontavam com Itapecerica e Carmo da Mata e não com Oliveira. Outro lado importante de verificação é a comprovação, pelo próprio andamento, que o arraial de N.Sra. de Oliveira foi criado antes de São Francisco de Paula que não possuía uma jurisdição própria.

Segundo ainda o historiador de Candeias, em 1780, o patriarca dos Diniz Linhares, Cambraia Diniz, Ferreira Diniz, Proença Diniz e outros ramos, já velho e cansado, teria fixado residência em Candeias – mas é certo que sua prole mais direta continuara na sesmaria herdada e dividida. Muitos dos filhos e netos se casaram com membros de outras famílias, indo viver em Oliveira, Candeias, Santo Antônio do Amparo e outras localidades da região. Mas muitos ficaram por São Francisco de Paula mesmo, onde ainda hoje encontramos o nome conservado do patriarca Diniz Linhares.

João dos Reys Curade adquiriu sua sesmaria a nove de setembro de 1769 na vertente do rio Jacaré, entre os córregos São Miguel e São João e confrontavam com as terras de José da Silva, e tenente Bento Vieira, o capitão Manoel da Mota Botelho e Francisco Garcia – todas em Candeias ou divisa com a mesma, ou em terreno pertencente ao arraial de Nossa Senhora da Candeias. A importância dele para a história de São Francisco de Paula reside no fato de que ele já morava na região desde 1766 e, portanto, mantinha contatos de amizades com os outros já feridos e, segundo o arquivo público de Candeias, aparecia como confinante de Domingos Rodrigues de Lima Tendais, fundador de Candeias e que fora guarda-mor em N.Sra. de Oliveira. Em 1774, João do Reys curado fixou residência em São Francisco de Paula, sendo nomeado para exercer o cargo de avaliador privativo do termo da vila de São José segundo ato da câmara desta mesma cidade que é hoje Tiradentes. Com isso vemos que o patriarca Domingos V. da Mota ao adquirir as suas terras, buscou atrair para parte de si a todos os seus mais diretos amigos, de onde podemos deduzir que São Francisco de Paula é filha da amizade que surgia também nos diversos arraiais da região. Da mesma forma o irmão do capitão Domingos, José Vieira da Mota, foi também atraído e adquiriu a sesmaria da Mata do Ribeirão, “no caminho que vai para o Piui”, segundo o códice 156, pág.191 do arquivo público mineiro: daí se vê que ele fazia parte também da comitiva do irmão, quando foi repartir as datas em Piui.

Deixamos para falar por último acerca de André Ribeiro da Silva, porque foi ele o que primeiro adquiriu sesmaria (entre os pioneiros de São Francisco de Paula, já que não podemos contar a Mata do Cintra que não foi aproveitada de início) em termo pertencente ao que é hoje São Francisco de Paula. Dos dois filhos de André, o capitão Serafim Ribeiro de Castro (cuja sua parte de sesmaria ficou mais para o lado de Oliveira) e o carpinteiro antônio Ribeiro da Silva (que dirigiu um engenho na fazenda do Lambari) de quem mais tarde o cientista (inclusive botânico) João Emmanuel Pehl chama de “Antônio Lambari”, foi deste final que originou o ramo familiar dos Ribeiro d Oliveira e Silva, de São Francisco de Paula e Oliveira. A sesmaria de André Ribeiro da Silva foi adquirida em 1753 e confrontava com as dos Bragança do Carmo da Mata: Manoel Pires de Bragança e Inácio Afonso de Bragança e, pelo lado de Oliveira com Manoel Martins Arruda, cujo ramo familiar veio também se instalar em São Francisco de Paula. O capitão Serafim Ribeiro de Castro fixou-se mais em Oliveira e Carmo da Mata. Há também um componente de Antônio Lambari.

Mas não podemos nos esquecer também dos Gonçalves Borges que se espalharam muito e, como diz um descendente do familiar, José Gomide Borges: “Alguns ramos desta família fixaram-se na região de Candeias, notadamente em São Francisco de Paula e Santana do Jacaré. Destacam-se os Machado Borges e os Gonçalves Borges, os primeiros em Santana do Jacaré onde houve um que fora capelão do lugar, Padre Antônio Machado Borges. Outros subiram o vale dos metais e alcançaram as vertentes do rio Santana, como Jacinto e Francisco Machado Borges.” Segundo a mesma fonte, os gonçalves Borges tiveram o seu primeiro estabelecimento em São Francisco de Paula.

AS PRIMEIRAS DIVISAS SESMÁRICAS

 Pelo lado que divisa São Francisco com Oliveira e Carmo da Mata, encontramos, em se referindo à sesmaria de Inácio afonso Bragança: “(…) e, outro sim, declaram os ditos louvados que as terras medidas que compreendem esta sesmaria na demarcação do rumo oeste, até uma cachoeirinha que nasce da ponta da serra, que será meia légua, pertenciam por posse que delas tomou Manoel Martins Arruda (pioneiro do povoado dos Martins, Oliveira), as quais lhe ficaram pertencendo a ele dito Arruda, por trate que entre si havia feito com o dito sesmeiro (Inácio); e da dita cachoeirinha declarada até o lugar do pião (marco de orientação), chamada posse da que pertencia a André Ribeiro de Oliveira e Silva por posse e trato que também havia feito com o mesmo sesmeiro, e do lugar do pião correndo rio acima entre o alto da cachoeira, ficam pertencendo a Inácio Afonso Bragança… “Vemos assim que se de um lado os sesmeiros se reuniam ligados pelos laços de amizade: Domingos Vieira da Mota, André Diniz de Linhares, João dos Reys Curado, José Vieira da Mota (sendo que destes dois últimos as terras não pertenciam à jurisdição que hoje é de São Francisco de Paula); de outro lado José Fernandes de Lima, os coelhos e os Gonçalves Borges. De outro ainda, por outros laços de amizade e compadrio, reuniam-se André Ribeiro da Silva e filhos, Manoel Martins Arruda, mais Inácio Afonso de Bragança e Manoel Pires de Bragança. E André Ribeiro da Silva dividia a sua sesmaria em duas, para cada um de seus filhos: a de Antônio ficava em território Francisco-paulense e a do capitão Serafim que ficava em território oliveirense, até a divisa com o que é hoje Carmópolis de Minas – só daí se pode Ter uma idéia da extensão de uma sesmaria. Vamos assim que, se pelo lado Oliveira deu-se o primeiro povoamento de São Francisco de Paula, pelos lados de Santana do Jacaré e Candeias deu-se a verdadeira manifestação de se instituir um povoamento real. Portanto, o verdadeiro precursor para se erigir a capela, como origem de congregação coletiva foi Domingos Vieira da Mota e não outro, em que pese a preciosa participação de José Fernandes de Lima na constituição (construção?) da capela e patrimônio, exemplo que foi seguido mais tarde por seu filho Manoel Fernandes de Lima.

A PICADA E O DESENVOLVIMENTO DE SÃO FRANCISCO DE PAULA

Como já vimos, a picada de Goiás não passava dentro de São Francisco de Paula como em Oliveira, que era atravessada dos cabrais ao córrego Maracanã, e daí seguia em diante, passando próximo ao engenho de Antônio Lambari, já em São Francisco de Paula, tomando rumo de Camacho. Portanto passava bem às margens do futuro povoado. E isto não representa em absoluto o menor desenvolvimento da localidade, uma vez que não passava também em Itapecerica, nem em Campo Belo – como já vimos, havia desvios para as localidades de interesse. Camacho mesmo era bem privilegiada pela picada e não prosperou tanto assim. Lógico que ela não deixou de influir no desenvolvimento dos povoados que ela cortava, mas existiram outras razões preponderantes para que uns arraiais se desenvolvessem mais que os outros; uma vez que, ainda que ela atravessasse o lambari e seguisse para Camacho, não deixava outro sim de passar em terras de São Francisco de Paula – e, portanto, era como se passasse dentro. E além disso, como sabemos, existiam muitos desvios e atalhos, e mesmo Tamanduá que passou mais tarde a termo da comarca ficava apenas num desvio do caminho novo.

Em 1790, apesar de São Francisco de Paula já possuir então a sua capela (como veremos adiante) consagrada e filiada à de Tamanduá, esta nem é tanto assim reconhecida (pela proximidade com Itapecerica) – daí é que a capela do santo de Paula passou a Ter menor condicionamento evolutivo, devido ainda a dependência a S.Bento do Tamanduá (em que pese a proximidade e facilidade) em lugar de S.José.

Apesar de todos os entraves possíveis, do ponto de vista comercial, com a criação da vila de S.Bento do Tamanduá, Campo Belo desenvolveu-se mais convenientemente e tornou-se paróquia em 1818 antes de Oliveira, quando teve acrescida à sua área as capelas de São Francisco de Paula, Santana do Jacaré, e Cana Verde, e veio a perder as duas últimas para santo Antônio do Amparo, cuja freguesia foi criada em 14/06/1832. Para São Francisco de Paula, no que se refere à assistência espiritual ficou bem dotada, pois o caminho para Campo Belo além de representar uma distância menor (assim como o de Itapecerica), tinha por isso mesmo uma comunicação melhor do que ir a S. José – e continuava tendo a assistência de Oliveira, a partir de 1832 principalmente, quando foi criada a sua freguesia. O fato de pertencer ao termo de S.Bento do Tamanduá se não propiciou a São Francisco de Paula melhorias maiores no que diz respeito ao âmbito do econômico, no entanto facilitou-lhe os entendimentos e atendimentos de caráter espiritual, educativo e salutar – ainda que o mais deficiente este último para todos os arraiais e vilas.

MOVIMENTO DA CRIAÇÃO DO ARRAIAL

 Como já vimos, a primeira sesmaria doada talvez para a região, foi a mata de Cintra que pertence hoje a São Francisco de Paula; mas também como já vimos, essas terras jamais tiveram aproveitamento, senão quando arrematada pelos Diniz Linhares. Portanto, temos que começar de 1753, quando quatro compadres resolveram apossar-se de terras devolutas que davam para os lados da forquilha (divisa de Carmo da Mata, Oliveira e São Francisco de Paula), eram eles: Manoel Martins Arruda, que tomou posse das terras onde hoje encontramos o povoado e bairro dos Martins – subúrbio de Oliveira; Manoel Pires de Bragança e Inácio Afonso de Bragança, onde mais tarde fundou-se a Ermida da Mata do Carmo (hoje Carmo da Mata); e André Ribeiro da Silva, com seus dois filhos, Antônio e Serafim, às margens do rio Lambari – hoje município de São Francisco de Paula e faz divisa com Carmo da Mata e Oliveira. Para as terras que se estendiam para o outro lado, apareceram outros interessados, na figura do guarda-mor e depois capitão Domingos Vieira da Mata, mais para a divisa com Camacho e Candeias; e depois atraído por este o capitão André Diniz de Linhares, que arrematou em leilão as terras do Cintra. E estes foram os principais pioneiros do arraial de São Francisco de Paula, acrescido de José Fernandes de Lima e os gonçalves Borges, no que tange às posses de terras. Mas quanto à sua fundação, mesmo como simples marco constitutivo de povoamento, a figura exponencial é ainda o capitão Domingos Vieira da Mota; tanto pela ereção da capela (não mais aquela capelinha – ermida ou erada – existente nos engenhos ou nas fazendas, para uso exclusivo do proprietário e os seus familiares e amigos), que temos que considerar a grande participação de José Fernandes de Lima e André Diniz de Linhares, quanto por Ter por volta de 1765/6, conclamado a todos a continuidade das obras do povoamento e erguer a capela que realmente veio dar a característica real de uma povoação, dando-lhe, junto aos outros referidos, o patrimônio e mão-de-obra. Aí aconteceu o fator que veio fazer com que São Francisco de Paula tomasse verdadeiramente feição de povoado e passasse realmente a constituir-se em tal, quando foi atraído para o local João dos Reys Curado, que veio de Candeias.

Em 1789 o capitão-general e governador de Minas, Visconde de Barbacena, emitiu ordem para elevação à categoria de vila e arraial de Tamanduá (que havia sido reconhecido como arraial em 1745); e este, a partir de 1790 passou a denominar-se S. Bento do Tamanduá com a sua comarca composta de 34 distritos. Daí S.José Del Rei cedeu parte de sua comarca, tendo como linha divisória de termos o rio Lambari, sendo do lado de S.José, Oliveira e do lado de S.Bento do Tamanduá, São Francisco de Paula.

A família dos Gonçalves Borges foi importante para São Francisco de Paula na fase seqüencial de colonização. Vinda de Trás-os-Montes, Portugal, logo se instalou em São Francisco de Paula, de onde salientaram José Gonçalves Borges, Antônio Gonçalves Borges e Bernardo. José e Antônio tornaram-se regentes de assaltos à capitura de negros quilombolas escondidos nas matas; José foi designado para São Francisco de Paula em 1803, enquanto seu cargo em Santa do Jacaré, designado que foi na mesma época. O capitão José Gonçalves Borges casou-se com Jacinta Luiza da Conceição e fixou-se definitivamente em São Francisco de Paula. E, como vemos no regulamento de D.Lourenço de Almeida, apesar que tais leis já continham modificações, o costume do brasileiro passar por cima delas é antigo; assim José Gonçalves Borges permaneceu trabalhando em São Francisco de Paula – às vezes era obrigado a sair para outras paragens em busca de negros, mas com pouco tudo foi se assentando e ele passou a cuidar tão somente de seus negócios no arraial. Ficando viúvo em 1811, tratou logo das segundas núpcias com Teodora Dias da Cunha, e a cerimônia foi realizada na capela de São Francisco de Paula, quando era capelão o pe. Manoel Veloso da Silva. A primeira esposa de José Borges, Jacinta, faleceu em Abril daquele mesmo ano em que ele se casou novamente a nove de Setembro – portanto ele curtiu a viuvez apenas cinco meses, o que era então costume. Depois foi residir em Candeias. Houve ainda o caso de uma filha de José com Jacinta, Maria Clara de Jesus, com o registro de Batismo em 1789, que depois se casou com João Martins Arruda (filho de Fernando Martins Arruda), mais precisamente a 25 de Novembro de 1802 na capela de São Francisco de Paula -estes Martins arruda são descendentes (filho e neto) de Manoel Martins Arruda, fundador do povoado dos Martins em Oliveira. Daí se vê que a história de um arraial se misturava de tal maneira a de um outro, que a história de São Francisco de Paula será a história de Oliveira, como a de Oliveira será a de Carmo da Mata e assim por diante…

O ESPÍRITO CULTO E RELIGIOSO

A cultura aliada à higiene, como já vimos, foi a escassez geral pelo Brasil afora, e um povoado tão pequeno como São Francisco de Paula no seu surgimento, lutou mais ainda para evadir-se de tamanha falta, sem lograr êxito, a não ser dos proprietários com maiores recursos que podiam enviar seus filnos a Vila Rica, Mariana, São João Del Rei ou Rio de Janeiro – mas estes mesmos lutavam naquela época com o problema maior do desbravamento das terras, do assentamento definitivo de sua propriedade e com o cultivo delas – a fim de que não as perdessem por devolutas, tornando assim as preocupações próprias maiores do que com a cultura dos filhos. Havia alguns rudimentos da intrução de primeira letras, apesar de tudo; pois já em 1721 há uma carta régia datada de 22 de Março e assinada por D.João V ao senado da câmara de São João Del Rei, mandando nomear mestres para a vila. Isto em se tratando da comarca do Rio das Mortes, é muito pouco ou quase nada. Devemos mesmo os primeiros graus de instrução em São Francisco de Paula e nas outras povoações da região, ao desencanto dos párocos para com a religiosidade dos moradores, que os levava sentir a necessidade que tinham de pelo menos os primeiros rudimentos das letras – por isto muitos padres além de ensinar na sua paróquia, buscavam também levar as primeiras letras aos subúrbios, freguesias, capelas e arraias distantes. Mas foi somente a 30/01/1774 que instituiu-se a primeira escola pública na capitania de Minas Gerais em S.João Del Rei, com aulas régias de latim. E em São Francisco de Paula, por seu lado, o pe. Manoel da Cunha Pacheco, por seus auxiliares visitadores, levava alguma luz à povoação no que tange o “temor de Deus” e o beabá. O pe. Manoel Pacheco residia em Tamanduá, mas, por outro lado, havia outros padres viajadores, que vinham de longe, a pastorear as suas ovelhas – e, como já vimos, o capelão de São Francisco de paula era o pe. Manoel Veloso da Silva.

Do ponto de vista da medicina profilática ou medicamentosa, encontrava-se os próprios fazendeiros, os negros velhos ou os caboclos a curar ou abreviar o tempo de vida da maneira mais empírica e natural possível, quando não surgisse um barbeiro ambulante ou um mascate a vender remédios com “fórmulas milagrosas” e “curas infalíveis.” Além de outras pessoas, muitos faziam uso das formas mágicas, apreendidas dos negros e dos caboclos.

Segundo consta em documentos antigos, eram quatro festas religiosas mais importantes no ano; entre elas o “Corpus Christi” e a procissão das cinzas (Quarta-feira de cinzas). Mas o sentido específico dessas festividades cristãs era muito mais de caráter mercantilista do que anímico – visava-se o alto conceito social, quando as seis pessoas mais conceituadas do local eram encarregadas de conduzir as varas do pálio na festa do corpo de Deus.

As casas de fazenda da época eram quase sempre mal cuidadas e modestas. Saint Hilaire descreve uma dessas: “Ficava situada, como as senzalas, ao fundo de um vasto terreiro e rodeada por mourões que tinham a grossura de uma coxa e a altura de homem, tipo de cercado muito comum na região. Da varanda, bastante ampla, em cuja extremidade fora erguido um pequeno oratório, passava-se para uma grande peça coberta de telha-vã e de paredes sem caiação, cuja única mobília consistia em alguns bancos de madeira, tamboretes forrados de couro e uma enorme talha com um caneco de ferro esmaltado para retirar água”, e continuava mais à frente: “Depois de Tamanduá, principalmente, já nos limites do sertão, as casas da sede das fazendas se compõem de várias edificações isoladas, mal construídas e dispersas sem ordem, no meio das quais dificilmente se distingue a residência do proprietário.”

A CAPELA DE SÃO FRANCISCO DE PAULA

Em resumo, se por volta de 1754 em diante iniciava-se o povoamento de São Francisco de Paula, no entanto do Campo Grande e Picada de Goiás ainda permanecia inóspita em 1759, quando o caçador de quilombolas, Bartolomeu Bueno do Prado saiu de São João Del Rei em busca de terras devolutas para a câmara daquela vila. Portanto, o grande desbravador de nossas paragens, não foi senão Ignácio Corrêa Pamploma, que a partir de 1765 saiu tomando posses para São José e fundando capelas por toda a região. A princípio, a concentração populacional foi maior em Oliveira ao longo do tempo, devido à proximidade com os outros pequenos centros de onde absorveu o melhor contingente e, temos como dado corroborativo o fato de que os sesmeiros Domingos V. da Mota e André Diniz Linhares concentraram-se mais em São Francisco de Paula e Candeias, assim como José Fernandes de Lima e os Gonçalves Borges, que se fixaram não só em Candeias como Santana do Jacaré (ficando como seu remanescente em São Francisco de Paula aquele que mais tarde viria a ser um baluarte no desenvolvimento do arraial, o capitão Salvador Borges da Silva). Só aos poucos uns e outros foram saindo para outras paragens e muitos dessas descendências permaneceram na região que lhes era própria e, alguns, até deixaram São Francisco de Paula antes que suas terras fossem transferidas com a demarcação limítrofe de novos municípios, tanto quanto outros mais que foram à caça de melhores promessas, vendendo suas terras e partindo (como os descendentes de Domingos Vieira de Mota). Já aqueles cujas terras se misturavam às de Oliveira, se prenderam muito mais a esta, mas jamais deixaram de dar assistência à comunidade francisco – paulense.

Os proprietários em São Francisco de Paula passaram a adquirir uma propriedade também em Oliveira, a fim de que estivessem mais perto, não só dos grandes negócios, mas que também pudessem suprir suas faltas, uma vez que ali os recursos tornavam-se consideráveis. Aconteceu assim um impedimento expancionista de São Francisco de Paula (se Oliveira por um lado, de outro Campo Belo e Itapecerica em menor escala), mas a concentração agrária, às vezes mais intensa que Oliveira não se perdeu de toda, e a pecuária persistiu sempre em alta, levando seus lucros para outras paragens que não São Francisco de Paula. Por isto, o seu comércio permaneceu estacionário e o campo industrial inexistente – São Francisco de Paula tornou-se fator cooperativo para o desenvolvimento de Oliveira, Campo Belo e Itapecerica em primeiro plano; e depois Candeias e Carmo da Mata – uma vez que os abastados fazendeiros e engenheiros (donos de engenho iam despejar o seu dinheiro onde houvesse um comércio mais ativo – como os de Oliveira iam despejar os seus valores em São João Del Rei ou Ouro Preto.

A CONSTRUÇÃO DA CAPELA

Sabe-se que o início de São Francisco de Paula, assim como da maioria das cidades de nossa região foi uma capela. Esta capela foi construída “às margens da picada de Goiás”, por provisão de 1766, quando recebeu a bênção a 16 de fevereiro do ano de 1770 e, tornada filial da de Tamanduá. Porém, toda a região do Campo Grande ainda pertencia a São José. E veio o processo econômico desencadeando um determinismo específico que pudesse corresponder relativamente às aspirações vigentes então, que não eram nem sequer de arraial ou vila, mas de simples agrupamento ou povoamento. Segundo reza a tradição, o que temos que levar em conta – pois são os dados que nos legou próprio tempo – é que as terras deram origem à povoação foram doadas em sesmaria aos Cintras e aos Lima, e em 1774 “já se constituía o patrimônio da capela” (Luiz G. da Fonseca), por doações de sesmeiros, onde chegaram mesmo a incluir o nome de Manoel Fernandes de Lima – o que seria impossível, visto que este personagem da nossa história era ainda uma criança. “Porém um registro da casa paroquial de São Francisco de Paula confirma o Manoel Fernandes de Lima como o doador de um patrimônio à igreja de Nossa Senhora do Rosário no mesmo São Francisco. “Os Cintra que tiveram a primeira doação de terras, onde se encontra hoje a mata do mesmo nome, não tomaram posse definitiva, por falta de aproveitamento dela que foi a leilão, sendo arrematada por André Diniz de Linhares em 1760. Estas terras foram adquiridas em sesmaria por título régio, em arrematação na vila de São José em hasta pública, pelo referido André Diniz a convite de Domingos Vieira da mota que se juntara a José Fernandes de Lima e organizaram capela e patrimônio – cuja participação dos Gonçalves Borges e Antônio Ribeiro da Silva não deixou de acontecer e foi preciosa. Portanto, cremos, esta primeira capela só pode ter sido construída onde é hoje a matriz (o que é mais lógico, como veremos em documento posterior do bispo de Mariana) com um patrimônio feito pela cooperação de cada um dos sesmeiros (cedendo um pequeno pedaço de suas imensas terras que se encontrassem num determinado ponto – de preferência um outeiro), onde se formou um grande largo; e, aos poucos, vieram construir-se as ruas cortando o redor da praça. Daí então, foi-se aumentando o patrimônio de acordo com a chegada de novos moradores que iam comprando outros pedaços de terras.

Dos Cintra não encontramos mais nenhum vestígio de continuidade histórica, pois que não residiram nas terras, ou se o fizeram foi por pouco tempo e, àqueles que reputam a Manoel Fernandes de Lima a construção da capela, podemos dizer que ele contava com apenas nove anos de idade quando a capela foi erguida. Era filho de José Fernandes de Lima, que acompanhou a expedição de Ignácio Pamploma em 1765, no povoamento oeste, quando adquiriu a sua sesmaria em São Francisco de Paula – portanto, em 1766, quando da construção da capela, já estava instalado em suas terras. Mas como podemos supor e ao contrário do pensamento geral, o fato da concentração populacional ter se manifestado mais em Oliveira que em São Francisco de Paula, é por Ter sido aquela a mais antiga fundação e, por isto mesmo, Ter tido a possibilidade de desenvolver de melhor forma o seu comércio.

A capela de Nossa Senhora da Oliveira é, pelo menos, dez anos mais antiga que a de São Francisco de Paula (…) quando o governador Luiz Diogo esteve no arraial de Nossa Senhora da Oliveira, em 1764, São Francisco de Paula não existia nem como capela nem como patrimônio. É possível que o historiador de Oliveira tenha dado a postura de mais antiga a São Francisco de Paula e outras da região, pelas primeiras terras adquiridas por sesmeiro que, como no caso de São Francisco de Paula, nem chegaram a fixar-se na região. Na verdade temos que considerar como verdadeiro marco de uma fundação como povoamento, a estabilização de um patrimônio que a viesse caracterizar enfim como arraial. E tal caracterização só veio ocorrer em São Francisco de Paula a partir de 1766, quando então o arraial de Nossa Senhora da Oliveira já estava bem caracterizado desde 1758.



Matérias relacionadas

    Final do corpo do documento e conteúdo da página